Dentre as histórias que importam pouco para a história oficial, como as dos sujeitos que constituem a grande massa de campesinos que se mudaram para Belo Horizonte, na década de 1970 – período de grande êxodo rural do país -, faz parte a história de minha família materna.
Nascida em uma fazenda no interior de Resende Costa (MG) e órfã de pai e de mãe aos sete anos de idade, minha avó Ilda nada sabe de sua origem familiar. Em 1971, aos 41 anos de idade, ela inicia o processo de migração do campo para a cidade, montada a cavalo, e carregando consigo apenas suas duas cardas manuais, uma mala, um bilhete, uma lata de leite e um de seus nove filhos. Quando ela, e aos poucos os demais filhos, se mudam para a região norte de Belo Horizonte, os ofícios do campo, como o cultivo em lavouras e a produção de lã, a partir da qual faziam colchas, deixam de ser seu principal modo de trabalho. No novo destino, passam a trabalhar como faxineiras, costureiras e serventes escolares. Neste percurso de se estabelecerem na recente capital, foram vistas pelo olhar hegemônico local enquanto Outras, estranhas, estrangeiras, pelos saberes e hábitos do campo, bem como pela linguagem que marcava sua origem geográfica. “Alguns olhos nos encaravam como se fôssemos bichos”, elas contam.
Instigada por um sentimento familiar compartilhado de não pertencimento, iniciei uma pesquisa e análise das fotografias e relatos orais de minha avó, tias e mãe, em busca de compreender os lugares de fronteiras que essas mulheres ocupam e ocuparam no território, bem como os modos de vida que trouxeram do campo para a cidade, reproduzidos nos quintais de suas casas.
Graças a um parente que se tornou fotógrafo lambe-lambe da cidade (que foi aconselhado ao ofício “mais leve” de fotógrafo, por ter asma), pude acessar as imagens dessa família quando ainda vivia no campo, em um momento da história nacional em que eram raras as famílias que tinham acesso à câmera fotográfica.
Através desta série de imagens, compostas por fotografias de arquivo e outras produzidas para esse trabalho, busco imaginar rostos desconhecidos das ancestrais de minha avó e outros modos de pensar a relação de parentesco e de pertencimento, desde um emaranhamento entre os modos de vida do campo e da cidade.












