Em especial, no Brasil escravocrata e pós-abolição, as imagens fotográficas de pessoas negras, muitas vezes produzidas por fotógrafos como Alberto Henschel, consolidaram uma visão hierarquizada da sociedade, onde os corpos negros eram retratados dentro de um contexto de inferioridade e subserviência. Henschel, um dos fotógrafos mais influentes de seu tempo, contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento da fotografia comercial no Brasil. Suas imagens, embora muitas vezes vistas sob o prisma da objetividade documental, eram impregnadas de intenções políticas e culturais que, conforme argumenta Lilia Moritz Schwarcz em Retrato em Branco e Negro, “legitimaram as hierarquias raciais e ajudaram a cristalizar estereótipos”. Apesar de serem geralmente interpretadas como registros objetivos da realidade à época em que foram feitas, suas imagens carregavam consigo intenções políticas e culturais profundas que refletem os contextos sociais da época. O papel das imagens na formação de ideias sociais é fundamental nas investigações sobre fotografia e representações de indivíduos negros no século XIX. As representações visuais criadas nessa época e amplamente difundidas contribuíram para moldar uma concepção da comunidade negra que sustentava o preconceito racial arraigado na sociedade e legitimava as disparidades sociais. Isso é um tema amplamente debatido por Teju Cole em seu ensino Known and Strange Things (2016), onde ele argumentou que “as imagens têm a capacidade sutil de se infiltrar na consciência coletiva, promovendo estereótipos perpetuar as narrativas de poder de onde surgiram”. No Brasil existe uma questão complexa de responsabilidade das imagens devido ao legado colonial e à profunda desigualdade racial no país.
As fotografias do século XIX não apenas registravam o cotidiano mas também contribuíam ativamente para perpetuar uma imagem que consolidava a exclusão e subalternidade dos corpos negros.. Angela Davis observou em seu livro “Mulheres Negras na História” (1981) que as imagens são frequentemente utilizadas como ferramentas de opressão mas também podem ser reinterpretadas para promover a emancipação. No cenário atual da sociedade contemporânea, a colagem se apresenta como uma técnica visual que possibilita reinterpretar imagens históricas com o intuito de subverter as estruturas visuais de controle e dominação. Schwarcz destaca que no século XIX, as fotografias tiveram um papel fundamental na criação de uma ideia racial que contribuiu para legitimar a inferioridade dos negros na sociedade”. Essas representações foram marcadas por retratos em que o estilo e composição das imagens refletiam as relações de poder entre brancos e negros, retratando os negros como subalternos e submissos. As teorias de Stuart Hall em Representação: Representações Culturais e Práticas Significantes (1997) ampliam essa reflexão ao salientarem que as imagens nunca são isentas de viés ou neutralidade. Conforme Hall afirma: “As imagens visuais refletem uma intenção cultural específica que influencia diretamente na maneira como as comunidades constroem e interpretam as dinâmicas de poder”. Isso é essencial ao analisar como a fotografia no Brasil do século XIX contribuiu para a criação de um imaginário social racista, onde os corpos negros eram destituídos de agência e complexidade.
A Série “Afetocolagens” utiliza essas teorias para oferecer uma nova interpretação das representações visuais históricas ao adicionar
uma dimensão emocional que historicamente foi negada às pessoas de cor. Através da técnica de colagem, essas obras questionam o ponto de vista colonial existente e apresentam uma nova perspectiva visual que celebra a individualidade e o valor dos corpos negros – enfatizando assim a importância de reconsiderar o papel das imagens na construção das narrativas sociais. Afetocolagem surge como uma resposta a essas questões através da ressignificação de fotografias de domínio público, onde pessoas negras eram registradas de forma marginalizada ou invisibilizada, as colagens visam reconstruir essas imagens, introduzindo narrativas que valorizam a presença e a dignidade dessas figuras. A técnica da colagem é particularmente relevante aqui, pois, como apontado por Hannah Höch, uma das pioneiras dessa prática no movimento Dadaísta, “a colagem permite uma reconfiguração radical da realidade, onde as estruturas de poder visuais podem ser desconstruídas, reorganizadas e que se possa interrogar as narrativas de poder, oferecendo uma nova linguagem visual que rompesse com a linearidade e o determinismo das representações dominantes”. No contexto de Afetocolagem, essa reconfiguração é usada para interromper as narrativas coloniais e propor novas leituras, nas quais os corpos negros são reposicionados como agentes centrais da história e da cultura visual. Em termos históricos, a colagem também desempenha um papel crucial na articulação de narrativas visuais que contestam as representações dominantes. Através da técnica de justaposição de imagens pré-existentes, os artistas conseguem subverter os significados originais das obras, introduzindo novas camadas de interpretação. Segundo bell hooks, em Olhares negros: Raça e Representação (1992), “é fundamental que os negros se apropriem das imagens que os representam, reconfigurando-as para romper com as visões coloniais e opressoras”.
Na pesquisa sobre narrativas visuais, a colagem é essencial como forma de remodelação das representações coloniais para resgatar elementos emocionais e simbólicos suprimidos pela objetificação dos corpos negros. Ao manipular fragmentos de obras de arte clássicas e fotografias históricas na colagem é possível criar uma nova representação dos corpos negros inseridos em contextos que valorizam sua humanidade e individualidade. A prática de ressignificar imagens historicamente opressoras por meio da colagem não apenas reverte as hierarquias visuais, mas também gera um novo imaginário social, onde o corpo negro é celebrado em sua pluralidade e complexidade. Esse princípio ecoa no uso da colagem em Afetocolagens, onde o ato de cortar e colar vai além de um gesto técnico, tornando-se uma forma de resistência visual. A colagem, assim, estabelece uma nova relação entre o passado e o presente, onde as narrativas de opressão são reescritas a partir de uma perspectiva afetiva e emancipatória.
Silvana Mendes












